As recentes mobilizações nas universidades em todo o Brasil são, para nós, um sinal aberto. Na USP, que vive uma greve estudantil atravessada por pautas que vão desde o auxílio estudantil que não supre as necessidades dos estudantes até comida com larva no bandejão; a UECE que vive um momento de refundação após mais de 10 anos sem seu Diretório Central dos Estudantes e organiza um Congresso Estudantil após ocupações na universidade; a UERJ que unifica estudantes e professores em uma greve deflagrada para garantir condiçõe mínimas para que a universidade siga funcionando. São jovens na construção das Marchas da Maconha, são jovens lutando pelo fim da escala 6×1, são jovens construindo as paradas LGBTIA+, jovens fazendo arte nas periferias das cidades, ocupando praças, jovens feministas contra os projetos de lei machistas no parlamento, jovens negras construindo alternativas de segurança pública popular em todo o país. Em cada canto do Brasil, a juventude está cansada de esperar.
É comum no dia-a-dia nos deparemos com o sentimento de raivacada vez mais presente. Não tem como ser diferente quando vivemos em um mundo com guerras internacionais eclodindo a todo tempo; com o aceleramento capitalista da catástrofe climática, que vêm impondo marcos cada vez mais curtos à humanidade; e do alastramento de projetos políticos ultraconservadores em diversos países. Essa conjuntura dura, ainda, vem acompanhada de um progressivo afastamento da população sobre a participação nos espaços políticos. Promovido, dentre vários elementos, pelo aumento da desesperança sobre a institucionalidade construída pela mesma velha política e o aprofundamento da precarização da vida do trabalho, sendo cada vez mais comum observamos a inserção da juventude, por exemplo, nos regimes de escala 6×1 e na informalidade, inflamados pelo discurso meritocrático do empreendedorismo. A raiva diante das desigualdades é mobilizadora e precisa ser organizada. Esse diagnóstico, para nós, é fundamental.
Por outro lado, é diante de todos esses desafios que ainda assim, também, vemos em todo o mundo diversas resistências dos povos insubmissos ao projeto de morte que tentam nos implantar. Seja na Palestina, nas aldeias, nos quilombos, nas favelas e periferias ou em cada esquina onde se encontra quem não aceita mais remediar a miséria e agora quer tudo o que sonhamos e podemos ter! Entendemos a nossa responsabilidade, diante disso, enquanto militantes ecossocialistas em construir os caminhos que façam florescer o encantamento dessas juventudes do norte ao sul do Brasil, para buscarmos as transformações necessárias para um outro mundo. O tempo atual nos exige síntese para construir a unidade e coragem para defender um projeto transformador, de horizonte ecossocialista, diante do obscurantismo dos fascistas de um lado e do conformismo dos reformistas que se apresentam freando as mobilizações sociais do outro.
Recusamos os diagnósticos pessimistas demais. Não é verdade que somos uma geração perdida, cansada demais para lutas ou em profundo desânimo. Em várias partes do mundo temos não apenas resistido mas estamos propondo, mesmo nas piores conjunturas, novas concepções para o futuro. É isso que fazem os jovens que foram às ruas ao som de k-pop pedir o impeachment do agora ex-presidente na Coreia do Sul, a jornada “No Kings” contra o autoritarismo nos Estados Unidos ou dos jovens da Palestina que, mesmo diante do genocídio a céu aberto promovido pelos EUA e israel, seguem resistindo dia após dia. Também não nos convencemos com análises otimistas demais. As juventudes seguem precarizadas em rotinas de trabalho e estudo cada vez mais intensas, plataformizadas para conseguir pagar as contas do mês e sem perspectiva de, diante do avanço da especulação imobiliária, terem uma casa própria para morar. A nossa conjuntura não é romântica e exige de nós pessimismo da razão e otimismo da vontade. Não funcionam palavras bonitas e programas anacrônicos e frágeis. Somos ecossocialistas e é esse programa referenciado na IV Internacional que devemos defender com bocas, unhas e dentes.
Adiar o fim do mundo, então, é a principal tarefa da nossa geração, para que a humanidade tenha um planeta possível de habitar nas próximas décadas. A juventude, com isso, sofre com um anseio particular diante da crise climática em serem hoje os que pagarão por mais tempo com os efeitos mais negativos dessa crise criada pelo próprio Capital. É nessa encruzilhada que nasce a Fúria – juventude ecossocialista. Do encontro entre os anseios e sonhos de dois coletivos de juventude, Ecoar e A Rua é Nóis, que da síntese fizeram surgir algo novo a partir do diagnóstico de que não há mais tempo para a passividade dos que se adequam às armadilhas institucionais. Nós queremos tudo e queremos agora.
Somos jovens de várias regiões do Brasil e estaremos em todas as lutas por um outro futuro: justo, bonito, vivível. A juventude que estará enraizada nas lutas populares, combatendo o fim da escala 6×1 pelo direito à cultura e ao lazer, que lutará por tarifa zero por um acesso digno à cidade, por mais investimento público na saúde/educação e menos para o agronegócio; contra os genocídios em curso no Brasil e no mundo; pela ampliação das políticas de cotas em todas as universidades para população trans/travesti; e contra o encarceramento em massa da juventude negra e periférica promovida por uma política falida de suposta “guerra às drogas”. Ser a juventude capaz de organizar a Fúria que nos aflige pelo desencanto à vida, à luta por uma amanhã possível do qual sonhamos e sabemos que é urgente conquistar.
“Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta. Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca. Quando eles virem invertida a correnteza, quero saber se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca.” – Gota D’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes